Dr. Cortês Polido nunca saía de sua imensa firma de Advocacia, no centro-oeste do país. Se saia, era apenas para reunir-se com clientes multinacionais, palestrar em grandes convenções, ou receber prêmios. Eventualmente, quando a coisa estivesse muito feia mesmo, reunia-se com magistrados.

Naquele dia, parecia ser o caso. Um mal-entendido em um processo que tramitava em uma comarca do sul faria seu cliente perder milhões. Sem hesitar, perguntou para os que rodeavam se queriam alguma coisa do sul e entrou num avião com três tarefas. Primeira: pegar um processo em carga. Segunda: fazer cópia integral de outro. Terceira: ao fim do dia, a tal reunião com o juiz.

Chegou cedo. Gel no cabelo, abotoaduras de ouro nos punhos da camisa, sapatos lustrosos. No cartório, porta trancada, em que pese o aviso “entre sem bater”. Sem conseguir entrar, resolveu bater. Uma senhora matrona entreabriu a porta, olhou-o de cima a baixo e, aparentando surpresa, indagou:

– Tu não sabes que até 10h30 o expediente é interno? - após o que, sem cerimônia, bateu a porta.

Nisso chegaram dois motoboys (notava-se por suas vestes). Um trazia caixas de cachorrinhos-quentes e outro, garrafas de refrigerante. Bateram na porta. O advogado tentou alertá-los do horário, mas antes que dissesse qualquer coisa, a porta se abriu e a mesma senhora, com um sorriso no rosto, recebeu a mercadoria, batendo a porta atrás de si. Era aniversário de um servidor e o cartório estava em festa.

Dr. Cortês decidiu ir ao bar - que pensara ser no mesmo andar do cartório - e tomar um café. Seguiu seu olfato até ver o balcão cheio de guloseimas, torta de sorvete, muita gente em volta. Acomodou-se e pediu o cardápio. Fez-se silêncio no recinto. A atendente, franziu o cenho e exclamou:

– Isso aqui não é bar, doutor! É a vara cível! Esta é a festa de despedida do estagiário que está saindo, assim como o senhor! Saia já!

Tudo ficou muito pior quando os cartórios abriram ao público. Advogados se amontoando para serem atendidos. Os servidores com feições de exauridos defendiam-se:

- Calma “cara” – ali se chamava advogado de “cara” – é difícil dar conta do volume de trabalho, nesta vara!

À hora da reunião, o causídico, já extenuado aguardava e nada do juiz. A assessora veio, então, avisá-lo de que a reunião teria que ser remarcada. O juiz, na condição de autoridade forense, fora parabenizar o servidor que aniversariava e, depois, iria à festa de despedida do estagiário. E no meio da tarde teria uma reunião na entidade de classe.

Frustrado e ofendido, o grande advogado retornou à sua cidade sem nenhuma das tarefas cumpridas (um processo estava com a informação errada na Internet e o prazo era para a outra parte; o outro estava numa pilha muito grande e, só daria pra encontrar no dia seguinte).

Ao ser indagado pelo seu pessoal sobre o que achara do foro sulista, deu de ombros e, após um profundo suspiro, fitou o interlocutor e asseverou:

– Igual a todos os outros...por Rafael Berthold (OAB-RS nº 62.120)