Charge de Gerson Kauer


O ambiente é uma sala de caixas eletrônicas do Banco do Brasil, na mais movimentada agência de Florianópolis. A cena se passa antes da porta giratória.

Uma jovem mulher bonita, bronzeada, ancas grossas, saia um tanto curta, blusinha justa, saltos altos, dirige-se ao banco acompanhada de sua mãe, para que esta receba a pensão previdenciária. A mãe entra, mas a moça bonita fica trancada.

Celular, moedas e coisas metálicas, põe na caixinha! Em seguida, abre a bolsa! - ordena o guarda.

Ela obedece e garante: 

- Estou limpa!

Faz nova tentativa de ingresso e é obstada por uma ordem truculenta:

- Só entra se tirar a roupa!...

Entre os circunstantes, forma-se um claque de gozadores voyeurs:

- Tira, tira!... 
         
A mulher não tira, vai embora e ingressa com ação contra o BB e contra a empresa Orcali Serviços de Segurança.  O banco não apresenta a cópia das filmagens por terem sido apagadas "porque nada de incomum ocorrera". Testemunhas confirmam que “a situação virou um circo”. Entre as versões das contestações surge a revelação de que a ordem para que a jovem se despisse partira de um homem não identificado que vestia um colete verde.

O juiz compara que "enquanto em países europeus e continente norte-americano o correntista é recebido de braços abertos por funcionários dos bancos, os pobres latino-americanos são muitas vezes desrespeitados, humilhados e tidos como pessoas, que numa total inversão de valores, acham que vivem em função dos estabelecimentos financeiros; é o poder dos mais ricos sobre os mais humildes". 

Nessa linha, o magistrado defere reparação de R$ 15 mil. As três partes recorrem.

A Câmara do TJ catarinense reconhece que "a reputação pessoal integra-se no direito da personalidade, como atributo da honra do ser humano, merecendo, assim, a proteção das normas penais e das leis civis reparatórias". E mantém os R$ 15 mil de indenização.

Semanas depois, na faculdade catarinense, o professor de Direito Civil estabelece aos alunos a apresentação de um trabalho abordando a ocorrência de dano moral no caso. Uma das estudantes apresenta uma pesquisada explicação preliminar sobre as origens do "strip tease" no mundo.

"É um termo burlesco associado à arte ancestral de espetáculos que incluem banho despida num copo gigante de bebida alcoólica. Literalmente traduzido, significa provocação (´tease´) na barra (´strip´)" - escreve ela no quadro verde da sala de aulas.

A turma universitária também faz uma gozação e pede - tal como fizera a claque bancária:

- Tira, tira!...

O professor se impõe, determina que a aluna conclua seu trabalho e lhe dá nota dez.

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Na semana passada, o banco e a empresa de segurança depositaram cerca de R$ 20 mil para liquidar a pendência judicial.