Sonho com uma revolução que nasça aqui no Rio Grande do Sul.

Já pensei em duas e escrevi sobre elas; a primeira a ser travada pelos profissionais da carreira jurídica, a segunda a ser travada pelas mulheres.

A terceira, esta que sugiro agora desejo que seja travada por todos os gaúchos e levada ao resto do país, onde somos reconhecidos, ainda, por valores herdados de nossos antepassados ( temperamento forte, coragem, rebeldia, honestidade, pertinácia...).

Neste 20 de setembro, o último do milênio, é momento de pensar que o povo rio-grandense é formado por pessoas de várias etnias, com heranças culturais que propiciam uma revolução sem os erros do passado, eis que, nossos conterrâneos vindos da Europa já viveram experiências traumáticas da primeira e segunda guerras mundiais, portanto, sabem que o caminho é a revolução pacífica, mas também sabem e sentem que só será possível travá-la com a vontade e o desejo de cada gaúcho- o maior desafio é descobrir como fazê-la de forma rápida, objetiva e eficaz.

Não basta reclamar dos governantes, não basta travar debates e críticas que via de regra resultam em nada. Nossos antepassados faziam política com ética, a palavra dada, se não cumprida terminava em duelo, costumavam fazer negócios sem documentos, na base do fio do bigode. As contas eram pagas no dia e hora marcados, as crianças respeitavam os mais velhos e não dormiam sem pedir a bênção aos pais e avós.

Os tempos mudaram, houve a liberação dos costumes, hoje as mulheres estão no mercado de trabalho, estudam, participam da política

Posto isto, não podemos correr o risco de, nesta fase de transição, perder nossas raízes, esquecer que nossa dignidade e honra são nosso maior patrimônio.

E, se temos honra, e a temos, se temos, ainda, dignidade e coragem, vamos lutar para salvar nossa gente, para salvar nossa cultura, para salvar esse legado que é de todos nós.

Não podemos deixar que as multinacionais, que a globalização da economia, que os banqueiros, os empresários que sonegam, os latifundiários que dão calote, nos transforme em mão-de-obra barata e nos reduza a uma legião de esfomiados, explorados e espoliados, para servir aos interesses da elite e do capital internacional.

Felizmente, homens ilustres e dignos governaram este Estado desde a época da Província de São Pedro, e a maioria deles não se deixou dominar pela política vinda do centro do país e do estrangeiro - não será agora, neste final de milênio que nos deixaremos intimidar.

Neste 20 de setembro de 1999, devemos lembrar que se a Ford não foi instalada em Guaíba é porque não convinha ao Rio Grande, foi um ato de coragem rebelar-se contra a indignidade das negociações que nos impunham, mas foi inegavelmente, também, uma prova de que os gaúchos dialogam com seu tempo histórico e preocupam-se com a mediação das questões brasileiras por terem consciência de que o progresso, em alguns casos, faz renascer e perpetuar o atraso e a subserviência ao capital estrangeiro.

O Rio Grande não precisa da Ford; é a Ford que precisa do Brasil – essa verdade tem de ser compreendida e assimilada pelo povo brasileiro.

A revolução da virada do milênio deve ser travada a partir de cada município gaúcho, com a participação de todos, em especial, penso, com a participação especial do homem do campo, da região da campanha, dando o primeiro passo nessa longa marcha que pode ser chamada de “Marcha da Indignação”, porque é lá que existem as maiores e mais profundas diferenças sociais, mas é de lá, da região da fronteira, que a coragem do gaúcho, na defesa da pátria, se fez sentir e ecoou por todo o território brasileiro, eis que marcada com seu sangue e inscrita no inconsciente ao optar com bravura por sua nacionalidade.

No final deste milênio é preciso pensar diferente, não há que se derramar sangue em batalhas, há que espalhar ações concretas de combate à miséria, de combate à violência, de combate ao desemprego, de combate aos que exploram o trabalho humano pagando míseros salários, há que deixar de preocupar-se com o horror que essas ações possam causar à elite, há que derramar coragem e desejo firme de indignar-se contra os poderosos.

Há que lembrar que o gaúcho sempre teve abundância de alimentos na mesa desde as épocas mais remotas, mesmo nos piores momentos nunca faltou carne, pão, charque, leite, frutas, feijão e arroz para seus filhos.É preciso indagar o que fizemos nestas últimas décadas para chegar ao ponto de termos 85 milhões de brasileiros abaixo da linha de pobreza , 28,7% da população vivendo com menos de um dólar por dia e 8 milhões de pessoas desempregadas.

É preciso compreender que a riqueza está no solo de nossa terra, na bravura, na coragem e na força de trabalho de nosso povo.

Somos diferentes, porque diferentes são nossas raízes, porque diferente é nossa história, porque diferente é nossa cultura, mas nosso valor não está nessas diferenças, está na opção que fizemos de ser brasileiros, no desejo e no compromisso que temos de amar, auxiliar e respeitar cada um de nossos irmãos do Chuí ao Oiapoque - esse compromisso nós vamos honrar na “Marcha dos Indignados”, possivelmente a cavalo.

Para tanto, é preciso que a elite, com a miopia e arrogância que lhe é peculiar, pare de fazer críticas destrutivas ao governador do estado, pelo simples fato de não aceitar que um gaúcho de origem humilde tenha chegado ao Palácio Piratini e se insurgido, já nos primeiros dias, contra a prepotência do governo federal – esse ato , quero acreditar, foi o pontapé inicial para a revolução da virada do milênio, a ser travada por todos os gaúchos.É preciso, portanto, arregaçar as mangas e exigir que a Assembléia Legislativa, independente de sigla partidária, não frustre a iniciativa e o sonho dos gaúchos de travar uma revolução na defesa dos princípios da bandeira farroupilha. igualdade .

Os deputados têm que escutar a voz do povo, que já não se contenta com cestas básicas porque quer emprego e salários dignos para todos porque aprendeu que nesta terra se reparte o pão.

É preciso semear não só esperanças, é preciso lavrar a terra nesta primavera que se aproxima para fazer germinar em nosso solo a semente que se transformará em alimentos e as idéias que se transformarão em ação para saciar a fome de milhões de brasileiros que hoje vivem da mendicância nos grandes centros de nosso país.

A Semana Farroupilha deve ser vivida de acordo com os princípios que nos foram legados sobre igualdade, liberdade e fraternidade.

A palavra empenhada, o fio de bigode, o espírito de luta, a vergonha na cara, a honra, o trabalho, a coragem, a solidariedade, e acima de tudo, a capacidade de indignação e a tradição de nossa gente de estar sempre com um laço apontando para o futuro, garantirá que as sementes plantadas pelos gaúchos germinem em todos os recantos deste imenso país, para tornar factível a Revolução da Virada do Milênio a ser travada a cavalo, e ao som do hino riograndense :

“Como a aurora precursora ,do farol da liberdade,Foi o vinte de setembro,o precursor da liberdade...”

Wanda Marisa Gomes Siqueira

OAB/RS 11060

Texto publicado originalmente em 1999